Estudo inédito em Portugal vai seguir 8600 crianças até à idade adulta para perceber impacto da dieta materna
A gravidez leva as mulheres portuguesas a terem mais cuidado com a dieta mas a ingestão de gordura está acima do recomendado e as vitaminas necessárias para o desenvolvimento das crianças provêm sobretudo de suplementos. Os investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) revelaram ontem os primeiros resultados do projecto Geração XXI, que têm vindo a ser publicados em revistas internacionais como a "Public Health Nutrition". O projecto vai seguir 8600 crianças até à idade adulta, para perceber o impacto da alimentação materna no crescimento e na incidência de doenças cardiovasculares ou da obesidade na população portuguesa.
Ana Cristina Santos, investigadora da FMUP, explica ao i que um estudo desta dimensão e com uma amostra tão diversificada é inédito em Portugal. As mães recrutadas em cinco maternidades públicas do Porto, entre Maio de 2005 e Agosto de 2006, tiveram avaliações antes e durante a gravidez a que se segue agora o acompanhamento periódico das crianças. Neste momento está a decorrer a primeira fase de avaliação dos filhos da Geração XXI, hoje com quatro e cinco anos, explica a coordenadora da investigação. "Cada vez mais existe a percepção de que a alimentação materna e a primeira infância são cruciais para a prevenção de doenças. O nosso objectivo é estabelecer uma ligação entre os comportamentos e a nutrição materna e o desenvolvimento das crianças."
O acompanhamento científico de crianças desde a barriga da mãe começou a ser feito nos anos 50 em Inglaterra, adianta a investigadora. É difícil comparar os resultados portugueses com os internacionais, esclarece. Ainda assim, o perfil das grávidas portuguesas parece ir ao encontro da média.
menos álcool e fast food Os dados da FMUP revelam que as grávidas portuguesas ingerem mais calorias que o recomendado, com origem sobretudo num maior consumo de proteínas e gordura. Ainda assim, conclui Ana Cristina Santos, as mulheres tendem a aproximar-se de uma dieta mais equilibrada quando ficam grávidas, algo que reflectirá as recomendações médicas. Comem menos carne vermelha e fast food, exemplifica. O consumo de lacticínios duplica, acompanhando de um ligeiro aumento no consumo de fruta, sopa ou pão. Já o consumo de álcool e tabaco cai cerca de metade entre o período gestacional e o primeiro trimestre da gravidez. Numa primeira análise, os investigadores destacam ainda padrões diferentes na nutrição materna consoante o perfil das mulheres: fumadoras e mais jovens parecem ingerir menos frutas e vegetais.
Os micronutrientes como as vitaminas motivam maior preocupação, explica a investigadora. O projecto Geração XXI concluiu que apenas 18% das futuras mães começa a tomar ácido fólico três meses antes de engravidar, quando o folato é recomendado a todas as mulheres em idade fértil. Sugerem a introdução de um programa nacional de fortalecimento do ácido fólico na indústria alimentar, estratégia semelhante à adoptada nos Estados Unidos ou no Canadá e que parece ter melhores resultados na diminuição dos casos de subdesenvolvimento das crianças. Durante a gravidez, 73% das mulheres têm uma ingestão insuficiente de vitamina E, 88% de ferro e 21% de magnésio.
Publicado em 14 de Dezembro de 2010 in IONLINE